Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.
Colunista do UOL
15/12/2022 12h23
Quem não quiser um spoiler da final pare de ler imediatamente. Para os que não se importam em saber quem vencerá, eis aqui o que está em jogo.
Minha mãe e eu estamos obcecadas com a história da avó argentina que se tornou o amuleto da Copa para nossos vizinhos.
Maria Cristina, também conhecida como Lita, é uma senhora perto dos 80 anos que, desde a primeira vitória do time nessa Copa, sai às ruas com sua bandeirinha para celebrar.
No começo, duas dúzias de marmanjos pulavam com ela cantando uma música inventada no momento que diz apenas “Abuela, la la la la lá, Abuela“.
Quando a seleção argentina conseguiu vaga na final, Lita já estava cercada por uma multidão e a canção “Abuela La La La La Lá” havia virado tendência nacional.
Digite “Abuela La La La La La” no Google Maps e veja.
Com isso, as avós foram colocadas no centro do palco.
Argentinos empolgados agora vão a casas de repouso cantar “Abuela La La La”. As abuelas – sendo ou não avós de fato – agradecem felizes.
Avós como amuleto para a conquista. Um roteiro imprevisível e belíssimo.
Se tem um grupo de pessoas que o futebol tende a ignorar são mulheres da terceira idade. Vez ou outra aparece uma torcedora que encanta a todos, mas sempre no lugar do exótico.
Mas agora a Argentina colocou as avós como amuletos na jornada de Messi e companhia.
Minha mãe, de 85 anos, disse que não torceria jamais para a Argentina e agora anda pela casa entoando “Abuela La La La La Lá Abuela”
Eu sinto dizer, mas não se convoca uma legião de avós impunemente.
Muito menos no país das “avós da praça de Maio”, mulheres revolucionárias que mudaram a história de uma nação.
Está escrito há dez mil anos, podem entregar a taça para Messi.
Ah, mas a França é melhor tecnicamente, dizem. E eu concordo. Só que não se brinca com a força de uma multidão de avós – vivas ou mortas – quando um país inteiro que se curva à memória delas.
Posso estar errada? Sempre. Acho que estou? Nesse caso, nem um pouco.
A Argentina fica com a taça e veremos uma festa nacional como jamais vimos até hoje: um país inteiro nas ruas celebrando sua história, sua luta e suas avós.
São as mulheres no centro de uma festa que há séculos as exclui.
Avós comemorando um título conquistado em solo totalitário num país que, por lei, coloca a mulher como sujeito inferior.
Para quem gosta de mais camadas, a melodia de “Abuela La La La La Lá” é inspirada em ” Go West”, música do Village People. Meu amigo Mauricio Svartman lembra que “Go West” é um hino gay.
Avós como amuleto, hino da luta pelos direitos LGBTQ, Copa realizada numa ditadura: tá tudo ali para quem quiser ver.
Esse roteiro não poderia ser escrito numa ficção. É a diferença entre ficção e realidade: a ficção precisa fazer sentido.
Um salve para todas as mulheres com idade para serem avós.
Lo más lindo de ganar debe ser ir a buscar a la abuela lalala de villa luro pic.twitter.com/1Rz4shstUz
ABUELAAA LA LA LA #AbuelaLalala #LaScaloneta #Argentina #Qatar2022 pic.twitter.com/IS3qp1sPbq
El ABUELA LA LA LA hizo que la gente vaya a festejar con los abuelos de los geriátricos. Estoy llorando ❤️😭 pic.twitter.com/F0v7y1lGep
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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Milly Lacombe
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