Esse texto soaria absurdo de tantas maneiras que poderia facilmente parecer uma história de ficção, mas é a mais pura realidade brasileira. Jair Bolsonaro, o ainda presidente, aquele que não aparece há mais de um mês, resolveu usar a sua caneta. Primeiro para mandar um recado à Arthur Lira, suspendendo o orçamento secreto e não repassando mais nenhuma verba. O que acontece? Lira fica sem poder de barganha para bancar a reeleição à presidência da Câmara e Lula vai ter que plantar dinheiro para negociar com o Centrão.
Mas Bolsonaro não deixou por isso, não. Teve um segundo ato. O governo deixou de comprar uma parte dos livros dos alunos das redes públicas para 2023. Sabem aqueles meninos que, quando crianças, se estão perdendo o jogo, pegam a bola e ninguém mais joga? Esse é Bolsonaro. Com esse bloqueio, as crianças (as de verdade!) só terão acesso ao material didático em 2024.
Ontem um colega jornalista me perguntou se eu acreditava na possibilidade de Bolsonaro chegar com força em 2026. Antes de dar a resposta vamos fazer um exercício de reflexão. Durante os 27 anos como deputado federal Bolsonaro nunca integrou uma presidência de Comissão permanente na Câmara dos Deputados. O máximo que ele fez foi, por exemplo, ser terceiro suplente de comissão permanente ou participar de comissões temporárias que discutiriam, em sua maioria, pautas militares.
A comparação que faço nesse momento é como aquele aluno de faculdade que só assiste às aulas porque o professor dá falta. Bolsonaro só começou a “trabalhar” (bem entre aspas) quando a mídia começou a repercutir suas falar a partir do fatídico “não te estupro porque você não merece”. E essa mesma mídia não entendeu o engodo que estava se criando. Bolsonaro sobrevive do espetáculo, da lacração, da escola Olavo de Carvalho.
Agora, fora desse jogo de poder dos holofotes, Bolsonaro não sabe lidar com os bastidores nem com a simplicidade da política que exige esforço e inteligência. Portanto, sem essa exposição toda ele não deve chegar com força em 2026. Porque “o que é bom aparece, o que aparece é bom”. Bolsonaro é, essencialmente, esse animal político midiático (para me referir a uma atualização do termo aristotélico) que não vive sem holofotes. Falei algumas vezes aqui no Yahoo! sobre Bolsonaro sendo o bufão (ou palhaço) como algo que não respeita nada nem ninguém, onde sua licença é total, sua impunidade a mais completa e seu ataque é forte. Tão forte quanto o que ele visa: o poder.
Como se não bastasse tudo isso, seu filho, Eduardo Bolsonaro, enquanto tem na agenda expediente em Brasília, é flagrado na Copa do Mundo do Catar. A justificativa? Foi levar um pen drive. Aí eu me pergunto: quem é o palhaço? Ele ou a parcela da população que acredita nessa justificativa?
Se “o mundo inteiro é uma cena” como dizia Shakespeare, Bolsonaro tem atuado muito bem no papel de herói dramático injustiçado. E, como dizia já Maquiavel, o Príncipe deve se comportar como ator político para manter e conservar o poder e seus súditos veem o que querem encontrar. Agora, um injustiçado pelas urnas, pelo poder, pela esquerda. Se é isso que querem ver é nisso que ele se transforma, afinal, o Príncipe desnudo chocaria a sociedade com a transparência reveladora. Bolsonaro e seu clã pregam e moralizam uma parte dos brasileiros que acredita veementemente que Lula não tomará posse, que um raio atingirá a Terra e tudo voltará à ordem antiga. Bolsonaro espalha as fogueiras, lança éditos e domina sem participar diretamente. Mas a realidade é cruel. E ela bate à porta. 2023 é logo ali. E o menino precisa voltar para casa porque a mamãe está chamando.
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