Pelé e as memórias de sua estreia na seleção brasileira: 'Dei passos como sambista, achando que era brincadeira' – ESPN.com.br

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Foi em 1957 que o Rei do Futebol iniciou sua trajetória pela seleção brasileira. Único jogador a ganhar três edições da Copa do Mundo, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, tinha apenas 16 anos quando jogou os 45 minutos finais do confronto contra a Argentina, no Maracanã, no Rio de Janeiro, em 7 de julho daquele ano.
Quase sete décadas depois, o eterno camisa 10, que nos deixou nesta quinta-feira (29), aos 82 anos, contou com exclusividade ao ESPN.com.br suas recordações.
[A lembrança mais forte foi] Quando meu pai [Dondinho] falou que eu tinha sido convocado para defender a seleção. Eu sorri e dei uns passos como sambista, achando que era brincadeira dele. Mas quando ele falou: ‘Não brinca por que é verdade’, eu quase chorei de alegria”, recordou Pelé.

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O local em que o ex-jogador deu uma “sambadinha” foi nada mais nada menos do que a sala da presidência do Santos. Na época, Pelé ainda não era famoso nem rico.
De origem humilde, ele morava no alojamento do Santos, em baixo de uma das arquibancadas da Vila Belmiro. Era comum para ele e outros jogadores irem ao escritório da diretoria para falar com os familiares por telefone. Os pais de Pelé moravam em Bauru.
A conversa com o pai ficou mais marcada do que a própria estreia. O Brasil foi derrotado por 2 a 1, e Pelé entrou no time no retorno do intervalo, ocupando a vaga que era de Del Vecchio, companheiro de Santos. O jovem atacante fez o tento de empate, aos 32 minutos. Mas os argentinos desempataram no minuto seguinte.
O que permitiu que Pelé fosse chamado pelo técnico gaúcho Sylvio Pirillo para dois jogos contra a Argentina pela extinta Copa Roca foi a “debandada” de alguns craques do futebol brasileiro.
No início de julho de 1957, Botafogo, Vasco da Gama e Fluminense estavam fazendo excursões. Jogadores como Nilton Santos, Didi, Garrincha, Zózimo e outros estavam juntos. Então, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) convocou mais atletas do futebol paulista. Basta dizer que dos 11 titulares, oito eram de São Paulo.
Rei do futebol, Pelé faleceu aos 82 anos de idade
As exceções naquela convocação foram o goleiro Castilho, do Fluminense, e o lateral-direito Paulinho de Almeida e o zagueiro Bellini, ambos do Vasco, que ficaram no Brasil.
De qualquer forma, Pelé deixou uma imagem muito boa na estreia e foi promovido a titular no segundo jogo contra a Argentina, desta vez no Pacaembu, em São Paulo. O time canarinho venceu por 2 a 0, e o atacante do Santos marcou novamente.
A seleção faria mais dois jogos em 1957, mas sem a presença de Pelé. Em 1958, já com Vicente Feola no cargo, Pelé foi chamado e ganhou chance até de ir para a Copa do Mundo da Suécia. Embora tenha iniciado o torneio como reserva, virou titular no último jogo da fase de grupos (contra a União Soviética) e ficou até o fim. No total, marcou seis gols e foi um dos destaques do título inédito.
Pelé sempre cita a importância daquela conquista e como ele e os demais jogadores atuavam como embaixadores brasileiros nas viagens pela seleção. “A coisa que mais me marcou quando cheguei na Suécia para a Copa de 58 foi ser recebido por várias garotas loirinhas, perguntando de onde eu era. Ninguém conhecia o Brasil”, reforçou Pelé.
Passados tantos anos da estreia pela seleção brasileira, os números falam por si só. Foram 114 jogos (entre oficiais e amistosos), com 84 vitórias, 16 empates e 14 derrotas. O Rei do Futebol anotou 95 gols, sendo o maior artilheiro da equipe até hoje. Foi três vezes campeão do mundo e ganhou uma porção de taças menores, como três Copas Oswaldo Cruz, duas Copas Roca, uma Taça do Atlântico e uma Taça Bernardo O’Higgins.
Com tantos troféus e recordes para citar, Pelé preferia mencionar mesmo a “sambadinha”. Segundo ele, foi um símbolo de alegria de ter sido lembrado pela seleção. “Pela globalização de hoje, [creio que] os jogadores são mais internacionais, e, quando são convocados [para defender a seleção], [a notícia] não tem o mesmo impacto daquela época”, concluiu o Rei do Futebol.
Até ser convocado por Pirillo há 65 anos, Pelé acumulava 27 jogos e 16 gols pelo Santos em 1957, tendo disputado apenas amistosos e o Torneio Rio-São Paulo (no qual o time alvinegro ficou com a quarta colocação).
O jogador havia treinado na equipe no ano anterior, fazendo dois jogos e dois gols. Tímido, vindo de Bauru, ele virou um fenômeno em pouco tempo. A camisa 10 foi casual naqueles anos. Isso por que Pelé ganhou a vaga no time titular do Santos após o meia-esquerda Vasconcelos ter a perna quebrado durante um confronto com o São Paulo – o zagueiro Mauro Ramos caiu na perna do santista e foi o responsável pela lesão.
Até a Copa de 1958, Pelé fez seis jogos pela seleção (considerando os duelos contra a Argentina, citados acima). Foi titular em três e reserva nos outros. Foi o período em que mais esperou para ser titular.
Depois dessa fase só seria reserva mais uma vez na seleção: em 1966, dois meses antes da Copa da Inglaterra começar. Feola havia convocado um número excessivo de jogadores (46) e fazia experiências nos jogos para encontrar a melhor formação. Foi assim em teste contra a seleção gaúcha.
Pelé teve oito técnicos diferentes na seleção, sendo que Vicente Feola e Aimoré Moreira o comandaram em dois momentos diferentes.
E dois estão nesta lista apesar de o terem comandando uma única vez e em partidas especiais. São os casos de Mário Travaglini e Paulo Roberto Falcão. O primeiro escalou Pelé partida contra o Flamengo, em 1976, feita em homenagem ao ex-atacante Geraldo e que arrecadou fundos para a família dele; e o segundo no aniversário de 50 anos do Rei, em 1990. A CBF considera esses dois jogos com o mesmo peso dos outros 112.
Rei do futebol, Pelé faleceu aos 82 anos de idade
O técnico que teve o melhor aproveitamento na seleção com Pelé foi Feola, entre 1958 e 1960, justamente a que rendeu a primeira Copa do Mundo ao Brasil. Foi de 90,4%.
TÉCNICOS DE PELÉ NA SELEÇÃO
– 1957 – Sylvio Pyrillo: 2 jogos, 50% de aproveitamento
1958-1960 – Vicente Feola, 26 jogos 90,4% de aproveitamento
– 1962-1963 – Aimoré Moreira: 15 jogos, 70% de aproveitamento
– 1964-1966 – Vicente Feola: 24 jogos, 81,3% de aproveitamento
– 1968 – Antoninho: 2 jogos, 50% de aproveitamento
– 1968 – Aimoré Moreira: 6 jogos, 66,7% de aproveitamento
– 1969-1970: João Saldanha: 17 jogos, 85,3% de aproveitamento
1970-1971: Zagallo: 20 jogos, 90% de aproveitamento
– 1976: Mário Travaglini: 1 jogo, 0% de aproveitamento
– 1990: Falcão: 1 jogo , 0% de aproveitamento
Pelé não defendeu a seleção em 1961 e 1967 e fez poucos jogos em 1964 e 1971. Naquela época, o Santos tinha um calendário recheado de jogos. A equipe disputava o Campeonato Paulista, o Torneio Rio-São Paulo e a Taça do Brasil. Algumas vezes tinha a Taça Libertadores e, em 1962 e 1963, ainda jogou o Mundial Interclubes. Fora isso fazia muitas excursões. Motivos que tiveram Pelé dos jogos.
Lesões também impediram Pelé de estar mais vezes com a camisa da seleção. Isso ocorreu durante a parte final da temporada de 1963 e em boa parte de 1964.
Entre o segundo semestre de 1966 e por todo o ano de 1967, Pelé recusou-se a defender a seleção. Após o fracasso na Copa, ele ficou irritado com a violência dos jogadores no Mundial que o machucaram. Anunciou que não jogaria mais pela equipe canarinho. Acabou revendo a posição e retornou em 1969. A despedida oficial ocorreu em 1971, já após a conquista do tricampeonato.
ESTATÍSTICAS DE PELÉ NA SELEÇÃO
1957: 2 jogos, 1 vitórias, 0 empate, 1 derrota, 2 gols
1958: 8 jogos, 8 vitórias, 0 empate, 0 derrota, 9 gols
1959: 9 jogos, 7 vitórias, 2 empates, 0 derrota, 11 gols
1960: 9 jogos, 7 vitórias, 1 empate, 1 derrota, 8 gols
1962: 8 jogos, 7 vitórias, 1 empate, 0 derrota, 8 gols
1963: 7 jogos, 3 vitórias, 0 empate, 4 derrotas, 7 gols
1964: 3 jogos, 2 vitórias, 0 empate, 1 derrota, 2 gols
1965: 8 jogos, 5 vitórias, 3 empates, 0 derrota, 9 gols
1966: 13 jogos, 10 vitórias, 2 empates, 1 derrota, 12 gols
1968: 8 jogos, 4 vitórias, 2 empates, 2 derrotas, 4 gols
1969: 14 jogos, 13 vitórias, 0 empate, 1 derrota, 10 gols
1970: 21 jogos, 17 vitórias, 3 empates, 1 derrota, 12 gols
1971: 2 jogos, 0 vitória, 2 empates, 0 derrota, 1 gols
1976: 1 jogo, 0 vitória, 0 empate, 1 derrota, 0 gol
1990: 1 jogo, 0 vitória, 0 empate, 1 derrota, 0 gol
Pelé sempre gostou de exaltar o papel que os jogadores do Santos tiveram na década de 1960 de divulgar o Brasil quando viajavam pelo mundo para jogar. Para ele, a seleção tinha a mesma missão.
Assim, Pelé visitou (com a camisa da seleção) a Europa, as Américas e África. Não foi para a Ásia e para a Oceania, locais que chegou a se apresentar em exibições do Santos.
PAÍSES ONDE PELÉ JOGOU PELA SELEÇÃO
México: 9 jogos
Suécia: 9 jogos

Portugal: 4 jogos
Chile: 3 jogos
Egito: 3 jogos
Itália: 3 jogos
Paraguai: 3 jogos
Colômbia: 2 jogos
Inglaterra: 2 jogos
Alemanha: 1 jogo
Argélia: 1 jogo
Dinamarca: 1 jogo
Escócia: 1 jogo
Espanha: 1 jogo
França: 1 jogo
Holanda: 1 jogo
Rússia: 1 jogo
Uruguai: 1 jogo
Venezuela: 1 jogo
Pelé entrou 114 vezes em campo pela seleção e marcou 95 gols, mas, para muitos historiadores, ambos os números estão errados. Eles desconsideram jogos feitos contra clubes (exemplo Atlético-MG, Corinthians, Coritiba, etc.) e combinados (seleção amazonense, seleção gaúcha). Assim, creditam 77 tentos em 91 jogos.
ESTATÍSTICAS DE PELÉ NA SELEÇÃO
1957: 2 jogos, 1 vitórias, 0 empate, 1 derrota, 2 gols
1958: 8 jogos, 8 vitórias, 0 empate, 0 derrota, 9 gols
1959: 9 jogos, 7 vitórias, 2 empates, 0 derrota, 11 gols
1960: 9 jogos, 7 vitórias, 1 empate, 1 derrota, 8 gols
1962: 8 jogos, 7 vitórias, 1 empate, 0 derrota, 8 gols
1963: 7 jogos, 3 vitórias, 0 empate, 4 derrotas, 7 gols
1964: 3 jogos, 2 vitórias, 0 empate, 1 derrota, 2 gols
1965: 8 jogos, 5 vitórias, 3 empates, 0 derrota, 9 gols
1966: 13 jogos, 10 vitórias, 2 empates, 1 derrota, 12 gols
1968: 8 jogos, 4 vitórias, 2 empates, 2 derrotas, 4 gols
1969: 14 jogos, 13 vitórias, 0 empate, 1 derrota, 10 gols
1970: 21 jogos, 17 vitórias, 3 empates, 1 derrota, 12 gols
1971: 2 jogos, 0 vitória, 2 empates, 0 derrota, 1 gols
1976: 1 jogo, 0 vitória, 0 empate, 1 derrota, 0 gol
1990: 1 jogo, 0 vitória, 0 empate, 1 derrota, 0 gol
Com a camisa da seleção brasileira, Pelé desfilou por 43 estádios diferentes. Alguns mais modestos como o de Moça Bonita, casa do Bangu. Outros históricos como o Santiago Bernabéu, em Madri, casa do Real e onde enfrentou o Atlético.
OS 15 ESTÁDIOS ONDE MAIS ATUOU
Maracanã: 37 jogos, 29 gols
Pacaembu: 8 jogos, 7 gols
Jalisco-MEX: 6 jogos, 4 gols
Monumental de Núñez: 6 jogos, 8 gols
Morumbi: 5 jogos, 4 gols
San Siro: 3 jogos, 2 gols
Mineirão: 3 jogos, 2 gols
Nya Ullevi-SUE: 3 jogos, 1 gol
Rasunda-SUE: 3 jogos, 6 gols
Beira-Rio: 2 jogos, nenhum gol
El Campín-COL: 2 jogos, 0 nenhum gol
Goodison Park: 2 jogos, 1 gol
Mälmo Stadium: 2 jogos, 4 gols
Puerto Sajonia-PAR: 2 jogos, 2 gols
Sausalito-CHI: 2 jogos, 1 gol
Foram 51 adversários que tiveram de enfrentar Pelé com a camisa da seleção. Além das principais seleções do mundo, também alguns times tentaram o feito. O caso mais famoso é o do Corinthians, com quem o Brasil fez o último amistoso antes de embarcar para Suécia, em 1958.
Em um Pacaembu lotado, a seleção goleou o Corinthians por 5 a 0. Pelé não marcou e ainda deixou o gramado com uma lesão no joelho após ser atingido de forma violenta por Ari Clemente. Quase perdeu a Copa ali.
OS 15 RIVAIS QUE MAIS ENFRENTOU
Argentina: 10 jogos, 8 gols de Pelé
Paraguai: 9 jogos, 10 gols de Pelé

Chile: 7 jogos, 8 gols de Pelé
Portugal: 6 jogos, 2 gols de Pelé
Peru: 5 jogos, 3 gols de Pelé
Bulgária: 4 jogos, 3 gols de Pelé
Inglaterra: 4 jogos, 1 gols de Pelé
México: 4 jogos, 2 gols de Pelé
Tchecoslováquia: 4 jogos, 4 gols de Pelé
Alemanha Ocidental: 3 jogos, 2 gols de Pelé
Egito: 3 jogos, 3 gols de Pelé
País de Gales: 3 jogos, 4 gols de Pelé
Suécia: 3 jogos, 3 gols de Pelé
União Soviética: 3 jogos, 3 gols de Pelé
Uruguai: 3 jogos, 0 gol de Pelé
*Texto publicado originalmente em julho de 2017 e atualizado

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