Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é necessário que se repita. Gosto muito de pesquisar, olhar para a história para entender nosso presente. Foi com esse intuito que escrevi o livro sobre Bolsonaro: para elucidar quem ele é.
E, para entendermos esse presidente é necessário olhar para quem ele foi como deputado federal, nos seus 27 anos de Câmara dos Deputados.
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Jair Bolsonaro não foi um parlamentar expressivo. Foi filiado ao PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC, PSL, ficou sem mandato e agora está no PL, partido do poderoso Waldemar da Costa Netto. Depois da janela partidária de 2022, o PL se transformou no partido mais poderoso do Congresso.
Isso já começa nos dizendo que ideologia partidária nunca foi o forte do atual presidente, o que explica, inclusive, ele ter ficado sem partido. Zero surpresa quando olhamos para essas mudanças.
Minhas análises começaram no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, quando Bolsonaro era filiado ao PPR, onde ficou até 1995. Por mais incrível que pareça, o parlamentar manteve uma certa independência. Votava de acordo com suas crenças bem pessoais. Partido nunca mandou nele.
No primeiro mandato de FHC, Bolsonaro votou diferente do governo e mais aproximado do Partido dos Trabalhadores. Nunca houve simpatia com o partido, mas ele era absolutamente contrário a todas as propostas do presidente da época, chegando a ficar 85% do tempo contra o governo.
Quando FHC se reelegeu em 1999, Bolsonaro migrou nas votações mais ao centro. Permaneceu ainda muito distante de partidos como MDB e o próprio PSDB que votaram quase cem por cento com FHC. A independência se mostra quando, depois de fazer oposição ferrenha no primeiro mandato, no segundo ele vota em 80% das ocasiões com o governo.
Pesquisa Ipec/Globo de 19 de setembro de 2022
Pesquisa Datafolha de 15 de setembro de 2022
Pesquisa XP/Ipespe de 31 de agosto de 2022
Pesquisa BTG/FBS de 19 de setembro de 2022
Pesquisa Exame/Idea de 21 de julho de 2022
Pesquisa PoderData de 21 de setembro de 2022
Pesquisa Genial/Quaest de 21 de setembro de 2022
Percebem a mudança?
No último ano de governo de FHC Bolsonaro volta a ser um dos parlamentares mais aguerridos contra o governo. Não existe uma lógica partidária. Existe uma lógica do parlamentar individual.
Em 2003, Lula assume e Bolsonaro volta para a mesma posição de quando FHC estava no primeiro mandato. Oposição dura. Somente em 2006 ele dá uma guinada brusca e vota 60% com governo, mais simpático que o próprio DEM (ex-PFL).
Já pensaram Bolsonaro votando 60% com PT? Isso aconteceu.
Esse número me chamou a atenção e eu fiz a análise de discurso dos 63 pronunciamentos. E ele dedica seu tempo a defender as Forças Armadas, a pedir aumento de salário e notificar as más condições destas.
Quando Dilma é eleita em 2011, Bolsonaro é, talvez, o mais ferrenho opositor a ela na Câmara dos Deputados.
É no governo dela que ele se mostra um forte oposicionista juntamente com DEM e PSDB. Bolsonaro é ainda mais contrário ao governo. Nessa época ele se aproxima do então deputado Onyx Lorenzoni (então DEM/RS), um dos principais defensores de uma candidatura de Bolsonaro à presidente.
Eu trabalhava com Onyx na época e não lembro das conversas com Jair, mas lembro sempre das posições muito firmes em defesa de armas, de Deus e do setor agro. Lembro de uma conversa com Onyx em que ele me contava que pelo fato de ter uma arma em casa ele conseguiu defender sua família numa tentativa de assalto.
Ao contrário do que muitos sempre tentaram fazer convencer, esse sempre foi um assunto bem resolvido para Onyx. Como o era para Bolsonaro.
Para não me alongar demais, entendo que quando falamos do deputado Bolsonaro podemos avaliar de duas formas: sim, ele foi, nos seus 27 anos como deputado, um parlamentar independente.
Outro ponto: talvez esse tenha sido, ao mesmo que uma boa característica, a sua ruína.
Num país onde o fisiologismo é a regra não ter aliados pode explicar as dificuldades que encontrou para governar. Restou como último respiro, a aliança com o Centrão.
Bolsonaro pode ser um grave problema como presidente. Como deputado optou por independência: por vaidade, por crença ou também por não conhecer o jogo.
Fôssemos um país com uma estrutura partidária bem definida, o fisiologismo não chegaria ao ponto de ser institucionalizado.
O Brasil é reflexo de políticos que conseguem ficar décadas no Congresso sem fazer nada. Temos a política que merecemos, do contrário, teríamos ouvido Eça de Queiroz: trocaríamos políticos como trocamos fraldas.
Pelos mesmos motivos.
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