História, trabalho, cultura e resistência. Em um pequeno povoado no interior da Bahia, mulheres compartilham entre gerações o ofício – e a paixão – pela associação comunitária. Localizado no município de Mairi, no centro-norte da Bahia, o povoado do Uruçu segue por mais de três décadas sendo liderado por mulheres e subsistindo de agricultura familiar. Atualmente, o faturamento já passa dos R$ 30 mil anuais.
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A comunidade fica a 314 km da capital baiana e a 18 da sede do município que pertence. Atualmente, cerca de 130 pessoas moram no local, boa parte integrante da mesma família responsável por iniciar a história do povoado.
Foi na década de 70 quando os Santana compraram um sítio e passaram a ocupar a região. No início, se resumia a uma casa de família, um comércio e uma sala de aula. A Associação Comunitária do Uruçu, hoje liderada por mulheres, surgiu por meio da família Santana, com uma história inusitada.
Em 1986, Matias, o patriarca dos Santana e agricultor, enviou uma carta para o presidente do país da época, José Sarney, sobre o Uruçu, para ajudar nos terrenos da população que não podiam pagar um trator. O documento foi respondido pelo chefe do Executivo, que orientou a criação de uma associação. Seu Matias, um sobrinho e sua filha Lucite seguiram a sugestão de Sarney.
Filha de Matias, Ozineide Santana, 61 anos, explica que a família não guardou a carta, tão menos uma cópia do documento, para recordar a história. “Naquela época a gente nem pensava que aquilo tinha tanto valor”, conta a aposentada.
As filhas do patriarca Santana foram as responsáveis por dar seguimento ao funcionamento e expansão da associação. Ozineide, que prefere ser chamada apenas de Neide, passou a ajudar a família e hoje é quem lidera a equipe da comunidade. A irmã dela, Lucite, 68, foi da diretoria da corporação por mais de uma década e trabalhou como professora na escola do povoado por mais de 30 anos. “Na mesma sala que entrei para dar aula, me aposentei”, recorda.
Os cargos e dedicação pela comunidade são quase hereditários. Lucite atualmente não faz mais parte da diretoria, mas segue como sócia contribuinte. A filha dela, Leciana, 25, adquiriu a paixão da mãe e seguiu a tradição familiar. Na gestão atual, é a segunda tesoureira. Além de ajudar nas finanças, Leciana é uma das dezenas de mulheres que auxilia na produção dos produtos vendidos pelo “Sabores e Saberes do Uruçu”, nome fantasia utilizado pela associação. 
Na época da colheita de mandioca, mulheres se juntam em mutirão para produzir farinha da raiz. Foto: Reprodução/Associação de Uruçu
Vendas de produtos estimulam manutenção da comunidade
Polpas de frutas, farinha de mandioca e azeite de licuri prensado a frio são os três principais produtos vendidos pelo Uruçu. A comercialização começou a ser realizada por conta da necessidade das famílias do povoado de ter renda e emprego.
Em 2014, aconteceu a principal mudança para a Associação. Em uma viagem realizada por missionários católicos brasileiros e estrangeiros, a instituição irlandesa Misean Cara, por meio das freiras Irmã Rita e Katy, adotam o Uruçu para a ampliação e geração de renda da comunidade. O projeto começou a operar em 2015, com o beneficiamento de máquinas voltadas à cultura do licuri. “Tudo começou no licuri, que a gente quebrava para vender e viver”, relembra Lucite. Além deste maquinário, uma despolpadeira de frutas, um fogão industrial e um freezer também foram doados à comunidade para o início da produção de polpas de frutas.
Nos anos seguintes a associação foi beneficiada com uma câmara fria para armazenamento das polpas, um dosador e um poço artesiano. Para iniciar a venda do azeite de licuri, uma máquina para produção e todas as embalagens para a fabricação também foram doados para a comunidade. A fábrica e a sede da associação foram construídas pelos moradores do Uruçu. A prefeitura agiu em 2020, quando cedeu o prédio da antiga escola do povoado para uso e comercialização dos produtos.
Anualmente o faturamento da associação com agricultura familiar corresponde a cerca de R$30 mil entre polpas, azeite e farinha de mandioca. São produtos vendidos em sua maioria para moradores de Mairi e entorno e às vezes para clientes de cidades maiores como Ipirá e Feira de Santana. Quase 50% dos ganhos correspondem a um único contrato com a prefeitura de Mairi, para fornecimento de polpas para merenda escolar do município.
O acordo é estimado em 4 toneladas anuais, mas Neide afirma que geralmente a gestão não adquire nem metade do número. Além dos valores arrecadados com a venda dos produtos, a associação também recolhe uma mensalidade dos associados, mas de valor ínfimo. “Temos 22 sócios, eles pagam uma mensalidade de R$2, e tem benefícios, ganha polpa, farinha”, conta a presidente da associação. 
Azeite de Licuri produzido pela associação demora 30 dias para decantar, mas é o produto mais querido pela comunidade. (Foto: Marcelo Sant’Anna)
Liderança feminina
Quem produz, lidera, gerencia e organiza a Associação Comunitária são mulheres. Dos 6 cargos da gestão da diretoria, cinco são ocupados por elas. A idade não faz muita diferença na gestão, enquanto a presidente, Neide, completa 61 anos, sua vice, Iris Mercês, tem apenas 20. A jovem, mesmo não sendo parente dos Santana, também teve a paixão herdada.
“Desde quando surgiu a associação minha mãe sempre foi muito envolvida no serviço, então desde novinha vim participando, vendo os movimentos. Quando fiz 18 anos já podia me associar, já conhecia o trabalho e todos os benefícios que a associação trouxe para a nossa comunidade e nisso surgiu a paixão de manter vivo o serviço. Quando os mais velhos vão saindo, tem que ficar a nova geração, né?”, brinca.
As mulheres dividem o tempo dedicado para a associação com empregos formais e trabalho de casa. Iris, a jovem vice-presidente, é atendente de supermercado no distrito de Mairi, chamado Angico. Leciana, filha de Lucite, presta serviços no posto de saúde do Uruçu. Já Neide, é aposentada e dedica seus dias na compra, venda, produção e limpeza da fábrica. “As vezes minha filha diz: ‘mãe, por que a senhora se dedica tanto? Mãe, não deixe a sua vida, sua casa’. Mas eu me sinto bem! Eu gosto desse trabalho, de ter contato com pessoas diferentes, reuniões, e trazer benefícios para a comunidade”, destaca Neide.
A associação não tem fins lucrativos e conta, em grande parte, com a contribuição voluntária dos moradores do povoado. As famílias que trabalham na produção de polpas de frutas recebem o pagamento de R$6,00 por hora. Já os agricultores que fornecem frutas para os produtos recebem o valor cobrado por eles. “Além de beneficiar a associação em si, beneficia também a comunidade, os agricultores”, explica a presidente Neide.
Influência na gestão
No interior da Bahia existem organizações semelhantes às do Uruçu, porém podem ser classificadas como cooperativas ou associações, o segundo caso é o que corresponde ao do povoado. “Uma associação surge em benefício da comunidade, as pessoas se unem por um objetivo comum. A associação tem um fim mais social, diferente da cooperativa que tem um fim econômico que gera lucro e o lucro é dividido entre os cooperados”, explica Adriana Moura, coordenadora de agronegócio do Sebrae-Bahia.
Em 2021, o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado da Bahia (SESCOOP-BA) registrou o faturamento total de R$ 6 bilhões arrecadados pelas 154 cooperativas ativas no estado. No caso das associações comunitárias, os valores não foram identificados pelos órgãos oficiais.
Os benefícios gerados pela comunidade estão nos movimentos culturais, como a Festa Anual do Licuri, geração de renda, qualificação de mão de obra e melhorias na estrutura do povoado, “tudo o que temos hoje aqui na comunidade foi por conta associação, posto de saúde, calçamento, igreja”, conta Neide Santana.
Esse tipo de entidade propicia não só o desenvolvimento do povoado, mas como do município como todo, “gera emprego, renda, uma receita que é revertida da comunidade para o próprio município. As pessoas começam a ter dinheiro e a comprar na cidade, gera um fluxo dentro da economia local”, explica Adriana Moura.
*Sob supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier
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